Futebol

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Centenário

Estádio Centenário, Montevidéu. 30 de junho de 2017 [Foto minha]

Saímos mais tarde de casa do que eu gostaria. Por volta das 11h. Mas o nascer do sol tardio para os padrões natalenses e o frio matinal do inverno montevideano, justificam, em parte, nosso atraso.

Começamos o programa do dia com um passeio na orla da cidade, seguindo a famosa Rambla. Saímos de Punta Carretas em direção a Pocitos. Quem é acostumado com a orla de cidades nordestinas como Natal e especialmente Maceió, a “via costeira” de Montevidéu não impressiona. O fato de eu já ter conhecido o Rio da Prata em Buenos Aires e Colônia, também contribuiu para enfraquecer a impressão que tive da costa da cidade. De toda forma, fui impactado pelo casamento da paisagem natural com a arquitetura sessentista dos prédios da Rambla.

Talvez por se tratar de um dia de semana, senti a falta de mais pessoas caminhando ou se exercitando pelo calçadão daquela que parece ser uma das áreas mais nobres da capital uruguaia.

Continuamos caminhando até o letreiro da cidade, tal qual o que inauguraram recentemente em Natal, na Praia de Areia Preta. Pausa para fotos e vídeos de turista e decidimos voltar ao nosso ponto de origem, dessa vez caminhando por dentro do bairro de Pocitos. Em geral, achei a paisagem dessa área de Montevidéu bem parecida com Copacabana e outros bairros da Zona Sul carioca.

Um dos momentos mais legais desse dia de flanagem, foi chegar, por acaso numa feira de alimentos, de rua. Para quem tinha como referência as feiras natalenses, aquela uruguaia me encantou bastante. Fiquei surpreso com a aparência, tamanho e suposta qualidade dos vegetais expostos. Também não passaram despercebidos alguns trailers/caminhões que vendiam diversos tipos de queijos e embutidos.

Feira livre em Pocitos, Montevidéu. [Foto minha]

Mas um pouco de andança pela região e acabamos chegando no lugar que havíamos escolhido para almoçar: o restaurante Le Perdiz. Mais uma vez fomos em busca dos assados do Uruguai. Mais uma vez foi uma experiência ímpar degustar a carne do país. É impressionante como eles conseguem conciliar uma carne extremamente macia, limpa e no ponto certo. Não lembro se já abordei isso em textos anteriores sobre essa viagem, mas eu saí do Brasil com um certo receio dos preços dos restaurantes do Uruguai. Os blogs e demais fontes que consultei alertavam para esse fato. No fim, achei tudo meio compatível com o preço que se pratica em Natal. Considerando que estamos pagando cerca de R$ 50 por pessoa em churrascarias nobres da cidade é que gasto isso ou mais quando vou, por exemplo, ao Rachid’s, penso que está bem razoável.

Após o almoço, nos separamos em dois grupos e rumamos em direção ao Estádio Centenário. Mais uma vez achamos mais fácil tomar um Uber do que outras formas de transporte.

Provavelmente Montevidéu não precisa de um sistema de metrô. Os ônibus não aparentam andarem muito lotados e parecem chegar a praticamente toda a cidade, mas confesso que fiquei um pouco mal acostumado com as facilidades do metrô de Santiago.

A ideia de programação para o estádio-sede da Copa de 1930 era uma visitação ao Museo do Futebol. Assim foi feito. No geral, achei o museu bastante desorganizado. Não há uma lógica na disposição dos itens expostos. Não se sabe se estão organizados de maneira temática ou cronológica. Inclusive há a presença de uma série de objetos que não são diretamente ligados ao esporte bretão. É o caso de alguns cartazes de jogos olímpicos.

O segundo andar do museu tinha itens mais interessantes, como troféus e camisas de clubes e da seleção do país.

Mas a melhor parte da visita ao museu foi poder entrar e contemplar o estádio a partir da arquibancada. A minha ligação com o futebol, por si só, já seria suficiente para que uma ida ao Centenário me emocionasse de alguma forma. Mas, por razões desconhecidas, vim nutrindo ao longo da minha vida um tipo de admiração pelo futebol uruguaio. Até consigo listar alguns episódios esporádicos em que a mística da celeste e do futebol uruguaio como um todo me tocaram, como a final da Copa América de 1995, as oitavas de final da Copa de 1990 e a graça de ter sido pego de surpresa ao poder ver um jogo do Penharol, em Colônia, em janeiro de 2011.

Estar no Centenário, ainda que apenas na condição de visitante, trouxe-me uma emoção diferente. As condições gerais do estádio me surpreenderam positivamente. A impressão que construí nos últimos anos, ao assistir partidas e reportagens pela televisão, era a de que o estádio estava em condições de conservação piores do que as que de fato encontrei.

A vontade de assistir uma partida naquele templo do futebol tomou conta de mim tão logo deixei as arquibancadas. Passei tanto tempo deslumbrado que quase perdi a hora de mais uma etapa do tour: uma visita ao mirante daquele equipamento esportivo. Segundo a guia que acompanhou a mim e Marcia, aquele era o ponto mais alto da cidade para uma mirada em 360º.

Experiência interessante, ter uma impressão das cercanias do estádio de um ponto tão alto, mas o Centenário parecia imantado em relação aos meus olhos. Logo esqueci da paisagem mais ampla de Montevidéu e voltei minha atenção para o templo do futebol uruguaio.

Infelizmente, a lojinha do museu estava fechada quando eu e Márcia concluímos nossa visita, mas os últimos momentos no lugar foram suficientes para que os gentis funcionários, ao perceber meu deslumbramento, me informassem que o jogo do Nacional, que acontecerá amanhã – e eu imaginava que ocorreria em outro campo – será ali mesmo, no Centenário. Confirmei a informação na bilheteria, mas preciso descobrir onde posso comprar minha entrada, já que, por alguma razão, os ingressos não serão vendidos no palco do espetáculo.

Após deixar o museu, demos uma volta no mesmo parque em que já estávamos. Como de praxe, havia muitos brinquedos de criança e Nina se fez. Num dado momento foi interessante ver Nina interagindo com uma garotinha montevideana com idade semelhante a dela. Mais uma vez fomos bem recebidos por locais da cidade. O pai da nova colega de Nina foi bastante gentil e nos ajudou bastante ao indicar o local correto para pegarmos o ônibus que nos levaria de volta a Punta Carretas.

Dia para ficar na memória.

Quando um flanneur brasileiro encontra um dos carrascos da Copa de 50

Calou o Maracanã em 50 [foto minha]

Em janeiro de 2011, eu e Márcia fomos a Buenos Aires acompanhados de Gabriela e Louise. Naquela ocasião, eu não me preocupei nem um pouco com a programação da viagem, confiando às garotas a tarefa de elaborar o roteiro. Marinheiro de primeira viagem em viagens para o exterior, acatei aquilo sem problemas e gostei bastante das escolhas que elas fizeram.

Acontece que voltei daquela viagem decidido a ser mais proativo no planejamento das minhas próximas investidas fora de Natal. Em quase todos os destinos para os quais fui a partir de então, me envolvi bastante na pesquisa sobre os lugares, chegando mesmo a gostar daquela tarefa.

Um misto de preguiça e desprendimento me fez despreocupar com o planejamento do que faria em Montevidéu. Cheguei a pesquisar em várias fontes, de blogs a vídeos, mas acabei sem sistematizar as informações que colhi em algo como um roteiro. O resultado é que cheguei com uma impressão geral sobre o que fazer na capital uruguaia, mas não tenho a menor ideia do que faremos em cada dia.

Em nosso primeiro dia completo em Montevidéu, iniciamos o dia – já perto do início da tarde – com uma exploração do Centro. Tomamos um ônibus, cujo motorista nos avisou quando descer para que estivéssemos próximos à Cidade Velha.

O ponto de partida que escolhemos foi a Praça Independência, um dos cartões postais da cidade (não que isso me valha alguma coisa). De cara, chamou-me a atenção a sobriedade do prédio em que está sediada a presidência do país. Funcional e de uma beleza discreta. Provavelmente, estou chegando ao Uruguai com visão exageradamente positiva, dada a desesperança que gira em torno da situação político-econômica do Brasil. Mas é impressionante constatar como um país de formação histórica semelhante à brasileira, funciona minimamente.

Imediações da Praça Independência. 29 de junho de 3017 [foto minha]

Andamos meio aleatoriamente pelo Centro, no intuito de chegar ao Mercado do Porto, onde almoçaríamos. Entramos pelo portal da Cidade Velha e seguimos por uma espécie de passeio público margeado por lojas instaladas em prédios antigos.

A primeira parada mais demorada foi na Praça da Constituição, na qual se destacou uma espécie de igreja matriz. Não foi difícil constatar a influência espanhola no estilo arquitetônico daquele edifício católico. Construção horizontalizada e sobriedade na forma que remetem diretamente às paisagens coloniais do norte do México.

Na sequência, seguimos o caminho e chegamos ao mercado do porto. Eu esperava um lugar mais caótico e inóspito, mas encontrei outra realidade. O calor das churrasqueira dos restaurantes funcionam como aquecedor para o inverno da cidade. Realmente, é de se imaginar que durante o verão a sensação não seja das melhores. Como o objetivo daquele almoço era ir a um bom lugar de carnes, escolhemos a primeira churrascaria que parecesse agradável e me surpreendi com a qualidade da comida.

Saindo do mercado, optamos por seguir em direção à 5 de julho, onde se localiza boa parte do comércio de rua da cidade. Fiquei impressionado com a quantidade e variedade de lojas, mas logo relacionei essa característica à timidez do Punta Carretas Shopping. Aproveitei o deslocamento e parei na Antel, a estatal de telecomunicações do país. Ainda na Cidade Velha eu havia comprado um chip pré-pago da operadora e não consegui fazê-lo funcionar. No fim das contas, entendi como funcionava o processo, mas por alguma razão os meus créditos acabaram bem antes do que eu imaginava.

Eu, Márcia, Nina e Gabi optamos por voltar caminhando para o nosso Airbnb e foi uma ótima experiência, já que cruzamos a fronteira entre o Centro e uma área mais residencial da cidade.

Chegamos por acaso a um ponto turístico da cidade: uma daquelas grades onde turistas abobalhados prendem cadeados. Na mesma esquina havia uma estátua de um dos carrascos brasileiros na Copa de 1950: Giggia. Também estávamos em frente a uma sorveteria na qual decidimos entrar. Sorvete ok. Mas o melhor dessa pausa foi poder observar, sem ser visto, um mexicano assistindo a semi-final da Copa das Confederações entre o seu país e a Alemanha. Sou bastante curioso para ver como pessoas de outros países lidam com as questões que me interessam. Futebol certamente é uma delas.

Após isso, caminhamos cerca de 1h30 até chegarmos a nossa hospedagem. Excetuando-se uma ladeira ou outra, flanar pela capital uruguaia é, sem duvida, uma experiência que pretendo repetir outras vezes.

Livros lidos em 2016

A partir desse ano quero começar uma tradição por aqui: fazer uma relação de livros lidos ao longo do ano, com alguns comentários sobre os títulos que mais me chamaram a atenção. Em 2016, a coisa foi mais ou menos assim:

Diários de bicicleta
David Byrne

Escrevi especificamente sobre esse livro, aqui. Diários de Bicicleta foi uma das leituras mais prazerosas que fiz em muito tempo. David Byrne tem uma escrita cativante e a premissa de abordar tópicos como mobilidade e planejamento urbanos, cicloativismo, relacionados à atividade de músico do autor, me interessaram demais.

100 discos do rock poriguar para escutar sem precisar morrer
Alexandre Alves

Tem sido empolgante ver as publicações de livros sobre a produção musical potiguar se tornarem cada vez mais frequentes, seja vindos da academia, como Nos Tempos do Blackout, ou mais despretenciosas, como o título celabrativo DoSol 10 anos. O 100 discos do rock potiguar traz textos de Alexandre Alves, Alexis Peixoto, Hugo Morais, Olga Costa, Jesuino André Oliveira e Mr. Moo, sobre discos considerados fundamentais para a história do rock do Rio Grande do Norte. Festival do Desconcerto, disco do SeuZé, lançado em 2005, está no livro.

A arte de fazer um jornal diário
Ricardo Noblat

No meio da minha graduação em História pensei algumas vezes em mudar de curso. Jornalismo foi uma das áreas que cogitei algumas vezes para uma migração. Cheguei inclusive a cursar algumas disciplinas em Comunicação Social e a curiosidade e interesse sobre a área nunca se dissiparam de vez. Gostei da abordagem de Noblat, focada nos bastidores da profissão, passando por diferentes estágios da carreira do autor.

Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização
Franklin Foer

Livro precioso que aborda a relação entre futebol e sociedade, em diferentes contextos. Da ligação entre o ludopedio e identidade nacional na antiga Iugoslávia, passando pela relações de gênero no Irã em torno do futebol, uma leitura essencial para quem se interessa minimamente pelo esporte bretão além das quatro linhas, ou mesmo como referência para discussões sobre globalização.

Do que eu falo quando eu falo de corrida
Haruki Murakami

Meu debute na obra do romancista Haruki Murakami foi através de uma não-ficção, Do que eu falo quando eu falo de corrida é um ensaio em que autor japonês reflete sobre como se tornou um corredor dedicado e como a disciplina e método necessários para a participação numa maratona, são semelhantes às demandas para a atividade de escritor de romances. Fiquei obcecado pelo estilo de escrita de Murakami e agora estou avançando na leitura de 1Q84.

Correr: o exercício, a cidade e o desafio da maratona
Drauzio Varella

Na tentativa vã de buscar inspiração para me tornar um corredor mais ativo, cheguei a esse livro inesperado de Drauzio Varella. Assim como Murakami, Drauzio tornou-se um corredor frequente já na vida adulta e maratonista, após os 50 anos. Ainda não completei os meus primeiros 5km, mas recomendo fortemente esse livro daquele que alguns chama de Dr. Áuzio.

Dias de inferno na Síria
Klester Cavalcanti

Relato extasiante do jornalista que foi enviado à Síria como correspondente de guerra e acabou preso no país.

Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável
Pedro Burgos

O título menciona vida digital, mas o livro de Pedro Burgos traz reflexões essenciais para a vida real, ao discutir o impacto das redes sociais e dispositivos móveis nos indivíduos e nas sociedades.

Jogador nº 1
Ernest Cline

Quando comecei a me dedicar à filmografia de Woody Allen, há 10 ou 12 anos, me questionei sobre as razões de eu me identificar com a maioria daqueles filmes. À época eu concluí que a explicação estava nas referências aleatórias – com Kant, psicanálise, antissemitismo, Marx, Freud, síndrome de impostor, que o diretor jogava nos diálogos, e que funcionavam como iscas para aquele estudante de História de então.

De certa maneira, o Jogador nº 1 teve um efeito semelhante em mim. À despeito da premissa de ficção baseada em realidade virtual e videogames, o livro é um apanhado de referências a nerdices e cultura pop dos anos 1980 e 1990 para fisgar marmanjos com mais de 30 anos, saudosos da sociabilidade nas locadoras de videogame e afins. Pois o marmanjo aqui mordeu a isca mais uma vez.

Master System: a história completa do grande console da Sega
Editora Europa

Em junho desse ano voltei a jogar videogame assiduamente após comprar um Xbox One e fiquei bem obsessivo em relação à temática, consumindo livros, podcasts e filmes sobre a mídia. Esse livro traz textos técnicos sobre o desenvolvimento do Master System e de alguns dos principais jogos, mas colocando sempre em perspectiva com o mercado, à época dominado pela Nintendo.

Super Nintendo: a história completa no melhor videogame da Nintendo
Editora Europa

O livro traz informações técnicas sobre o Super Nintendo e alguns dos jogos mais reconhecidos.

Meia-noite e vinte
Daniel Galera

Roberto Carlos em detalhes
Paulo Cesar de Araújo

Som do vinil: Clube da Esquina
Entrevista a Charles Gavin

Um brasileiro em Berlim
João Ubaldo Ribeiro

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Pretendo fazer esses compilados anualmente e reunir todos aqui.