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História musical de um jovem orelhudo e olherudo - Parte 8

Posso dizer, por experiência própria, que para alguém que almeja algo tocando algum instrumento, nada como começar tocando em alguma banda. O ritmo de ensaios e até mesmo o clima de novidade são fundamentais para um contato mais constante com o instrumento. Claro que é preciso ter bom senso para saber que não vai ser tão cedo que a primeira apresentação acontecerá. 
Fui um felizardo por ter tido essa oportunidade. Quando comecei a tomar gosto pelo contrabaixo e vislumbrei uma possibilidade de ser baixista profissional em um futuro distante, tive a sorte de estar começando o República 5. 
Em seus primeiros passos, a banda não sabia exatamente o que iria se propor a fazer. Nada mais natural. Éramos todos moleques, cujo conhecimento musical não ia muito além de músicas cifradas da Legião Urbana e a idéia de montar um grupo era muito recente. 
Começamos tentando tocar covers da Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso e afins. Confesso que nesse momento eu me mostrei muito tímido e pouco participativo. Não fazia nada além de tocar as músicas sugeridas pelos outros integrantes. 
Depois de um bom tempo de ensaios, eis que surge o convite para a primeira apresentação. A amiga de um tio de Carlinhos (baterista do República 5) nos viu ensaiando uma vez e resolveu nos iniciar na vida. No sentido musical, evidentemente. 
O problema é que na ocasião não tínhamos chegado nem a uma hora de repertório. Para uma banda iniciante, ávida pelo primeiro show, isso não seria um problema. Por esses tempos Fell era fã incondicional de O Rappa e sabia cantar todas as músicas do disco Rappa Mundi. 
Não poderia ser mais legal. Além do nosso primeiro show, também seria a primeira noite de improvisos da banda. 
Assim, em algum dia da última semana de dezembro de 1999, fizemos a nossa primeira incursão ao-vivo na música. Somados erros e improvisos nada interessantes, chegamos à conclusão que deveríamos ensaiar mais um pouco antes de tocar de novo. 
Mas já era tarde, duas semanas depois estaríamos fazendo apresentações na Praia de Zumbi e começando a aprender com os próprios erros

Não reclame se eu sou sedentário e não pratico esportes

Há um tempo, quando eu devia ter uns 15 anos e ainda sonhava em ser jogador profissional de futebol, tive a chance que esperava para chegar ao estrelato. 
Não importava se até então eu havia reprovado em todos os exames para a equipe de futebol do colégio, ou se eu era reserva do time de futsal da minha rua, mesmo levando em consideração que o meu pai era o técnico. Eu estava decidido participar do “peneirão” do Vitória da Bahia, naquela manhã de domingo. 
Se não me falha a memória, fiquei sabendo da notícia através do globo esporte do sábado anterior. Corri e pedi o aval do meu pai para tal empreitada. 
No dia anterior, mal consegui dormir. Passei a noite pensando como seria a minha nova vida em Salvador. Já tinha até traçado o meu caminho: após passar no peneirão do vitória, ficaria naquela equipe por mais 3 anos; aos 18 seria contratado pelo Corinthians, e dois anos depois pelo Vasco; aos 20 anos, começaria a receber propostas dos maiores clubes da Europa, mas só aceitaria a milionária que o Real Madrid faria; participaria da copa de 2002, sendo eleito o melhor jogador e no ano seguinte abandonaria o futebol para trabalhar como garoto propaganda das maiores marcas do planeta. 
A reação da minha mãe, ao receber a notícia que eu participaria do teste, foi bem interessante. Não esperou muito e foi falar com o meu pai: 

- Luis, não deixe esse menino ir fazer esse teste. Imagina se ele passa e vai ter que morar fora. Ele não vai se acostumar, eu não vou me acostumar... 
- Calma, mulher. Não se preocupe! Eu assino embaixo. Não é dessa vez que ele vai morar fora de casa. 

De fato, as expectativas do meu pai se confirmaram. Já no “peneirão”, joguei exatos 10 minutos, pois assim com eu, cerca de 100 garotos foram ao campo de futebol da UFRN com o estrelato como objetivo. 
Voltei para casa cabisbaixo, mas já possuía um violão para o meu consolo. 
Hoje em dia ataco como peladeiro profissional, apesar de não agüentar jogar mais que 30 minutos seguidos. 

História musical de um jovem orelhudo e olherudo. Parte 7

O baixo que eu havia tomado emprestado era meio desprovido de beleza, mas tinha um sonzinho até legal. Mas o mesmo problema que passei com a guitarra, passaria com esse instrumento ligeiramente mais grave: a falta de um amplificador adequado. Mais uma vez, quem pagou o pato foi o meu velho aparelho de som 3x1 anteriormente danificado. (Danificado ainda está, mas através dele que ouço os meus vinis e CDs. Das três, uma.

Ou eu parei no tempo, ou sou pão duro demais, ou sou endinheirado de menos para fazer um upgrade no meu reprodutor sonoro. Fique à vontade para construir o seu próprio desfecho.

Assim, e em virtude da minha característica de empolgação e desempolgação por minuto, não tardou para que eu achasse aquilo tudo um saco. Não tentei mais que 3 semanas, abandonei o baixo e só voltaria a olhar para ele em algum dia de julho ou agosto de 1999, mais ou menos um ano depois.

Mais uma vez, Carlinhos foi o incentivador. Dizia estar montando uma banda e me queria como baixista. Contrariando uma idéia antiga – a de comprar um violino e um cavaquinho – há pouco tempo eu havia vendido a minha guitarra e comprado um bom violão Rampazzo. Não tinha vontade nem dinheiro para comprar um novo instrumento tão cedo. Assim, fiquei usando o baixo Gianinni Stratosonic emprestado por um bom tempo. Carlinhos sempre foi bem intencionado, mas, vez ou outra, aparecia com uma idéia meio fantasiosa. No primeiro ensaio da tal banda, nada de anormal (excetuando-se a anormal inabilidade dos músicos, evidentemente): um baterista, 2 guitarristas (um deles acumulando a função de vocalista) e 1 baixista. Não tardou, porém, para que o estado de anormalidade tomasse a cena. Com a entrada continuada de outros integrantes, a banda chegou à nada normal formação: 1 baterista, 1 baixista, 1 backing vocal, 3 guitarristas e 3 vocalistas (que tinham que disputar o posto com os guitarristas e o baixista).

Por sorte, ainda restava um pouco de normalidade em minha essência. Eu e Carlinhos decidimos dividir os 9 integrantes em duas bandas distintas. É lógico que os integrantes de uma delas não receberia mais ligações para ensaios e afins. A escolhida findou com a seguinte formação: eu (baixo/backing vocal), Carlinhos (bateria), Gustavo (guitarra/backing vocal), Fellipe Cesar (vocal/guitarra) e Joaquim (backing vocal/pandeirola). Estava fundada a formação inicial do República 5, e plantadas as sementes de muitos sonhos. Muitos.

História musical de um jovem orelhudo e olherudo - Parte 6

Conheci Carlinhos aos 7 anos de idade. A gente jogou muito futebol e brincou de "Comandos em Ação" juntos. 
Pela vizinhança, não demorou para virarmos grandes amigos. 
Nossos primeiros passos na música foram juntos. Pensamos que tocamos em uma banda de pagode, aos 16 anos. E a partir daí não nos separamos mais (que romântico...). 
Quando decidi que iria vender minha guitarra para comprar um violino e um cavaquinho, ele foi o primeiro a tentar me convencer a não fazer isso. Tanto tentou que conseguiu. 
Certo dia ele me ligou dizendo: "venha aqui em casa que eu tenho um presente para você". Não levei mais que 20 segundos para estar batendo na porta da casa dele (fato não tão impressionante, já que até hoje moramos a 50 metros de distância um do outro). 
Chegando lá, e após seguir algumas instruções, fui até o quarto do cara com os olhos fechados. Ao abri-los, a grande surpresa: um contrabaixo elétrico Gianinni Stratosonic anos 80. No momento não entendi o que aquilo significava, e as conseqüências que aquele gesto traria. 
Observando o meu sorriso e a minha cara de satisfação ele falou: "Esse baixo é do meu tio, mas está parado faz um bom tempo. Ele é seu até que você compre um". 
Comecei a tentar aprender o instrumento, e ao contrário do que passei com o violão e com a guitarra, o desenvolvimento foi bem rápido. 
Mas eu não estava feliz. Não estava gostando de tocar baixo. 
Demorou para que eu deixasse de tocar o novo instrumento mais por obrigação do que por gosto. 
Era algum mês de 1998, eu havia vendido minha guitarra e trocado meu violão. Minha barba estava começando a fechar e eu estava começando a gostar de aprender a tocar baixo.

História musical de um jovem orelhudo e olherudo - Parte 5

Definitivamente, tocar guitarra era o meu mais novo sonho. Como já tinha algumas manhas do violão, os primeiros passos no meu novo instrumento não foram lá tão complicados, para mim, evidentemente. Conforme já relatado em algum capítulo dessa saga, a minha família já estava começando a se acostumar com os meus quase afinados dedilhados no violão, mas uma guitarra elétrica, sem amplificador, plugada no som da sala, fala consideravelmente mais alto. 

Quem me conhece bem, sabe que se houvesse uma frase para me resumir, essa seria: “Empolgação e desempolgação por minuto”. Não tardou para que eu me entediasse com isso tudo. 

A guitarra era muito linda, mas a sonoridade não fazia jus à beleza. Minha família é muito cordial, mas a gritaria não fazia jus à gentileza. 

Quando consegui finalmente estourar as caixas de som do meu velho aparelho 3 em 1 (que me serve até hoje, com as mesmas caixas estouradas), decidi que não queria mais aquela guitarra. 

Havia um tempo a música clássica entrara na minha vida através de Beethoven e Bach. Ganhei do meu pai uma coletânea do gênero com 10 CD’s, e corri feito louco à procura de documentários e biografias sobre os gênios que me conquistaram. Seguindo o meu lema “empolgação e desempolgação por minuto”, estava eu decidido a comprar um violino e aprender a tocá-lo. Mais ou menos nessa época, fui apresentado aos fascínios do chorinho, pelo meu pai. Não tardou para que Jacob do Bandolin e Waldir Azevedo também entrassem para o hall dos meus mais novos ídolos. Não tardou também para eu inserisse o cavaquinho no hall dos meus mais novos sonhos de consumo. Estava mesmo decidido a me tornar o grande solista da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte e o maior nome do chorinho brasileiro no século XXI. 

Eis que aparece um velho amigo para me salvar, ou não.

História musical de um jovem orelhudo e olherudo - Parte 4

Sempre fui muito mimado. Quando eu queria uma coisa, insistia até ganhar. Com a guitarra não foi diferente. Meu pai comeu o pão que o diabo amassou (e cagou) com essa história. 

“Não precisa mais insistir. Você vai ganhar sua guitarra. Mas se ficar em recuperação, não ganha nem biloca”. 

Infelizmente, a minha vida musical sempre esteve diretamente ligada aos estudos. Se eu ia bem na escola, tranqüilo. Caso contrário, nada de instrumentos. 
Novembro de 1997. Finalmente havia eu enfrentado a 8ª série. Para o meu desespero (e sossego geral da vizinhança), havia ficado em recuperação em Ciências (a partir desse contato inicial, eu passei a odiar Química pelo resto da minha vida. Reza a lenda que não abri o livro da detestada matéria uma vez sequer no ano de vestibular) e sonho da guitarra estava adiado. 
Insatisfeito e discretamente conformado, fui assistir a tal aula de Química. Lembro como hoje. 
O professor, se chamava João Roberto. Gerente de banco, dizia ele que ensinava por hobby. Mesmo com toda a boça atestada na narrativa de suas últimas viagens ao redor do mundo, era um professor bom e honesto. 
Chegando à primeira aula da recuperação - para variar atrasado – me deparei com João Roberto comentando a última prova: a que tinha me tirado do caminho da guitarra. Minha chateação era tamanha que não quis ver os comentários. Mas o professor, apesar de ensinar Química e ser botafoguense era sensato. 

“Luis Felipe, olhe sua prova. Pode haver algum erro de correção”. 

Meio sem vontade, segui os sábios conselhos. E não é que a minha prova havia sido corrigida de maneira errada. Não me lembro de números exatamente, mas era coisa de um ponto a menos. Exatamente a diferença que me faria passar. 
Resolvido o mal entendido, nota corrigida na caderneta, dedo estirado para o resto da turma, voei para casa. 
Não me importava se meu pai é a pessoa mais mal humorada do mundo na hora do almoço. Quando sentou na mesa, a primeira coisa que ouviu foi um: 

“Me dê o dinheiro. Eu não fiquei em recuperação. Pode me dar minha guitarra”. 

Explicado o sucedido, ele foi categórico. Me deu o dinheiro ali mesmo na hora, talvez mais interessado em me ver longe dali, do que pensando na minha felicidade musical. 
Passei a tarde entediado sem achar o cara que me venderia o motivo dessa capação de porco. À noite finalmente eu o encontrei e feita a negociação voltei feliz para casa. 
Mesmo sem uma qualidade sonora perfeita, a guitarra era mesmo linda. Uma Jennifer stratocaster anos 80, de cor vinho. 
Meu pai jamais poderia imaginar a capação de gorila que aquela aquisição causaria. De fato, meus companheiros de lar já estavam acostumados com o som do meu quase afinado violão. 
Mas uma guitarra elétrica sem amplificador, plugada no som da sala, falava um pouco mais alto que seu irmão acústico.