Zé Ibarra na Sede Cultural DoSol


Ontem fui mais uma vez à Sede Cultural DoSol, dessa vez para assistir ao show solo de Zé Ibarra.

Toquei com a Banda Café em uma festa fechada no sábado à noite e no domingo pela manhã tive um ensaio com o SeuZé. Como resultado, passei o dia inteiro sonolento e indisposto, o que me levou a cogitar seriamente deixar de ir ao show para o qual já tinha ingressos. Enquanto hesitava, pensava que essa era uma apresentação que eu não poderia perder, visto que o artista em questão é alguém que tem um potencial enorme para virar um grande nome da música brasileira, certamente ocupando algum espaço na tradição da MPB, e essa oportunidade de vê-lo em um espaço intimista como o novo palco do DoSol, certamente vai ser difícil de se repertir novamente. Com um empurrão de Márcia, acabei indo.

Conheci Zé Ibarra através da Dônica, seu primeiro projeto, e passei a acompanhá-lo desde então, tanto no trabalho com o Bala de Desejo, quanto nessa encarnação solo.

A base do repertório do show foi o disco recém-lançado, o Marquês, 256, com outras releituras não contidas no álbum – e Lua Comanche, lançada com o Bala Desejo. Eu já tinha sido impactado pela técnica, tessitura e beleza do timbre vocal de Zé Ibarra, sobretudo ao assistir performances mais improvisadas em lives no Instagram, além dos próprios registros em disco pelos seus projetos, mas a impressão de ouvi-lo ao vivo, nesse formato voz em violão, foi muito mais marcante. Ibarra alia um domínio da voz e uma execução primorosa do violão como poucos o fazem na música brasileira atual. Contribuíram para isso, tanto a operação de som de Bráulio, técnico que tem viajado com o músico carioca nessa turnê, além da própria estrura de som da charmosa sala do DoSol, que mais uma vez se provou bem dimensionada e pensada para o espaço.

Quem acompanhou o Bala Desejo, projeto composto pelo próprio Ibarra, Júlia Mestre, Dora Morelenbaum e Lucas Nunes, desde o início, ficou clara a inspiração da banda nos Doces Bárbaros. Da opção por figurinos andróginos, à apresentação despojada/acústica em forma de quarteto, muita coisa ali remetia ao grupo formado por Gal, Bethânia, Caetano e Gil no meio dos anos 1970. Essa reverência ao santíssimo quarteto baiano continua no trabalho solo de Zé, seja pela escolha do repertório de covers que, com exceção de Bethânia, contempla a todos os outros, seja quando, no show de ontem, Zé Ibarra declarou se inspirar diretamente em Gal ao lançar mão de registros agudos em seus arranjos vocais.

Mas o leque de referências do músico carioca vai bem além. Um aspecto relevante do show e também do disco de Ibarra, é o papel de apresentar a uma nova geração de ouvintes artistas sobre os quais atualmente se fala muito pouco e cujas músicas provavelmente só chegam a ouvidos um pouco mais curiosos que a média. Foi uma grata surpresa testemunhar boa parte do público presente estar com as letras de canções de canções de Paulo Diniz e Guilherme LamonierVou-Me Embora e Vai Atrás da Vida que Ela te Espera – na ponta da língua. Há cerca de duas décadas os Los Hermanos fizeram algo semelhante ao resgatar e reapresentar uma parte da obra de Belchior. É um movimento que acontece na música brasileira de tempos em tempos, mas poucos artistas o fazem com tanta intencionalidade e sem fechar os olhos para os seus colegas de geração. Ao mesmo tempo em que segue esse caminho de diálogo com o passado da música brasileira, questionando e ressignificando a tradição da MPB, Zé também deixa espaço para apresentar os seus contemporâneos de composição e criação musical. Os repertórios do show e disco reservam espaço para canções de compositoras mais novas como Sofia Chablau e a já citada Dora Morenlenbau.

Valeu demais a ida ao DoSol para testemunhar pessoalmente esse show de início de carreira de um nome com potencial para alcançar patamares de mais prestígio e reconhecimento na música brasileira.

No ano passado escrevi sobre o papel do bom gosto no bloqueio criativo que acomete compositores, escritores e outros. Estar diante de um artista como Zé Ibarra, certamente é um gatilho para a sensação de “para quê continuar compondo e cantando se tudo o que pode ser criado já está ali muito mais bem feito do que eu posso fazer?” A resposta a essa pergunta já tinha sido dada naquele mesmo dia, mais cedo.

No ensaio mencionado no início do texto o SeuZé voltou a trabalhar, em estúdido, em novas composições após cerca de 10 anos e foi uma sensação muito boa ver as canções tomando forma e fazerem ressurgir aquele sentimento de que estamos trabalhando em algo que pode significar algo para quem nos ouve, bem como voltar a colocar o trabalho da banda – e os nossos individuais enquanto músicos e compositores – em movimento. Ainda vejo sentido em continuar compondo, gravando e fazendo shows.

Pequenas mudanças

Recentemente tenho feito algumas pequenas mudanças e implementações aqui no blog. Foi o caso do Blogroll, sobre o qual falei na última postagem. O botão para adicionar comentário foi deslocado para o final dos posts. Também venho tentando fazer com que pequenos trechos de músicas e podcasts oriundos do Spotify, que usei em algumas postagens, sejam exibidos corretamente na versão mobile do site.

Quando esse felipetavares.me é acessado a partir de um computador, o player com o clipe de áudio aparece da maneira correta.

Mas quando o acesso é a partir de um telefone celular, o espaço quue deveria exibir o tocador fica vazio.

Essas últimas intervenções que fiz por aqui me lembraram como ir realizando pequenas mudanças, aos poucos, por mais óbvio que pareça, é algo muito mais sustentável do que grandes alterações, que acabam impedindo que a principal razão de esse blog existir – ter textos publicados – aconteça.

Desde que voltei a me interessar por discussões sobre web aberta, IndieWeb e passei a acompanhar muitos blogs pessoais, um dos tópicos que mais gosto de acompanhar nos sites alheios é sobre como esses outros escritores pensam e estruturam os seus próprios sites. Também tenho gostado bastante de acompanhar discussões sobre o tímido retorno aos sites pessoais nesse contexto de “fim” das redes sociais

Aqui uma excelente reflexão de Matthias Ott, um desenvolvedor alemão a cujo site cheguei através dos buracos de minhoca que os só blogrolls e links para outras postagens, típicos dos blogs pessoais, possibilitam.

Acredito que refletir um pouco sobre os caminhos temáticos e estruturais que o meu site pessoal segue e virá a seguir, é algo que pretendo fazer mais frequentemente por aqui.

Blogroll

Criei uma nova sessão por aqui, o Blogroll, que era como nos referíamos, no início dos anos 2000, à listagem de sites recomendados por cada blogueiro.

Começo com alguns endereços que tenho lido mais frequentemente nos últimos anos e meses, mas pretendo ir atualizando à medida que outros forem entrando no meu radar. E essa renovação dos links deve realmente acontecer, visto que ao acessar um novo blog, uma nas primeiras coisas que faço é procurar a recomendação de outros sites pessoais.

O Blogroll desse Música em Versão Beta está acessível na coluna direita deste blog, caso você esteja acessando a partir de um computador, ou através do modo paisagem do seu celular.

Também é possível chegar a essa lista através do menu localizado no canto superior direito dessa página ou diretamente por aqui.

Procrastinação e como falho miseravelmente nos hacks mentais

Lendo essa postagem recente de Federico Viticci, do Macstories, me lembrei de como não consigo fazer esses hacks mentais. No post ele fala que a demanda de trabalho que tem parece grande e intimidadora, mas que após concluída a recompensa será os jogos de videogame que o esperam, Starfield e a DLC de Pokémon.

Já tentei diversas vezes implementar essa estratégia de autorecompensa para ver se encaro mais objetivamente as demandas de trabalho diante das quais procrastino (incluindo aí me permitir separar na agenda momentos para compor sem sentimento de culpa) mas costumo antecipar o desfrute dos regalos a mim mesmo prometidos sem que a obrigação laboral tenha sido concluída.

Essa inclusive foi uma pauta frequente que debati com a minha ex-terapeuta, quando a mesma sugeria essa abordagem para lidar como a minha falta de foco resultado, provavelmente, de uma TDAH ainda não diagnosticada.

Reflito sobre isso nesse momento porque tenho lidado com uma situação semelhante. Preciso encarar duas demandas de trabalho que exigem uma dedicação maior, com etapas de pesquisa e estruturação de apresentações, mas a procastinação está forte como nunca. E as recompensas que eu tinha estabelecido para mim eram bem próximas das de Federico, incluindo o próprio Starfield e outros jogos. O que eu fiz? Assinei novamente o Gamepass para ter acesso aos videogames antes de ter concluído a minha demanda laboral. Entretanto, como geralmente acontece, o resultado é algo como uma paralisia que não me permite fazer nenhuma das coisas.

Como o prazo para uma das demandas se encerra na sexta desta semana, a saída que estou pensando é mesclar intervalos menores de recompensa, como a Técnica Pomodoro e, ao fim poder realmente escolher um jogo para explorar.

Poeta Chileno

Ontem à noite voltei à obra de Alejandro Zambra através de Poeta Chileno. Mais uma vez fisgado pelo realismo sem firulas da prosa do escritor santiaguino.

Em mais uma história ambientada em Santiago, me vi compreendendo uma série de referências a lugares, comidas e da capital do Chile, que pude experimentar nas duas vezes em que estive na cidade.

Da mesma forma, as pequenas piscadelas que Zambra dá aos leitores da sua geração (sou de 82, ele de 75), sobretudo ao citar músicas, bandas, e videogames mais universais e caros a quem cresceu nos anos 1980 e 1990 e estava minimamente atento à cultura pop daquele período, criam um vínculo que me parece bem mais natural do que em outras obras que lançam mão de referências generacionais, como Jogador Nº 1, de Ernest Cline.

Ler Alejandro Zambra mais uma vez tem feito pensar sobre um aspecto da minha produção artística que eventualmente retorna às minhas reflexões: a dualidade “local-universal”.

São impressões semelhantes às que tenho tido ao imergir na obra de Haruki Murakami ao longo dos anos. Sem exceções, ao longo da sua produção de ficção, o autor japonês abusa do recurso a citações à cultura ocidental, sobretudo a música e compositores, ao passo que não abre mão de especificar detalhes, como nomes de ruas, bairros, estações de trem, modos de preparos de alimentos, específicos das cidades japonesas em que as suas histórias se desenrolam.

Em algumas composiões minhas mais recentes, venho conscientemente tentar lançar mão de referências tipicamente natalenses, como é o caso da “camisa do Alecrim” que o narrador da letra da canção Desapego menciona.

O verso mencionado começa por volta de 20s.

De certa maneira, porém, me preocupo com a forma com que essas referências aparecem nas minhas músicas, de modo que possam fazer sentido para ouvintes que não compartilham das experiências de viver no lugar de onde escrevo.

Por outro lado, me interesso muito mais por essas pequenas inserções, nas minhas letras, de fragmentos da experiência do que é ser natalense, do que propriamente fazer da canção uma listagem de supostas qualidades da cidade ou do estado em que nasci e onde vivo.

Continuarei atento a como essa questão tem sido abordada na música que consumo e em outras expressões artísticas.

Tentando voltar à Hyrule

Em fevereiro escrevi sobre a empolgação de recomeçar a jogar The Legend of Zelda: Breath of The Wild. Eu estava recém retornando das férias e acreditava que conseguiria continuar a jogatina mesmo com a retomada da rotina de trabalho e outras ocupações. Acabou que pouco depois de publicar aquela postagem, não retornei mais a Hyrule. E, ainda que, obviamente, o tempo tenha se tornado mais escasso com o retorno às atividades laborais, esse não é o único motivo da minha negligência com Zelda.

Apesar de visualmente encantador e com mecânicas que me fazem querer viver no mesmo mundo que Link, o escopo do jogo é de certa forma intimidador, seja pelas dimensões do mundo aberto ou pelo próprio tamanho da campanha. O fato é que jogos que funcionam bem em sessões menores têm me seduzido mais nos últimos tempos.

Por exemplo: eu ainda não havia explorado as novas pistas que a Nintendo tem liberado aos poucos para o Mario Kart 8, e agora tenho tentado fechar todos o campeonatos com troféu de ouro em 200cc. Cada tentativa não chega a tomar 10 minutos e me parece bem mais exequível que uma sessão de Breath of The Wild.

Também tenho jogado bastante o Tetris original de Game Boy, na versão do Nintendo Switch Online, que eu já vinha explorando levemente desde o lançamento, e que tem me interessado mais desde que assisti ao filme homônimo.

O fato é que tenho negligenciado um dos apelos potenciais do Switch que é a portabilidade. De alguma maneira não tem parecido natural para mim jogar títulos de mais fôlego na forma portátil do console, resumindo essa experiência a jogos mais casuais como os já citados Mário Kart 8, Tetris e, também, Animal Crossing: New Horizons. Mas refletindo sobre isso, lembro que da primeira vez que joguei o último lançamento da franquia Legend of Zelda, revezei bastante entre jogar na TV e no modo portátil, e a experiência não foi lá tão ruim. Talvez a experiência de jogar na TV cobre um pedágio que está me afastando do jogo: ficar num ambiente mais desconfortável (no geral a sala do meu apartamento é um dos cômodos mais quentes do lar) e depender de o aparelho não estar sendo usado por Nina ou Márcia.

Na iminência do lançamento do Tears of the Kingdom me vejo querendo retornar para concluir o Breath of The Wild, para a partir daí poder me dedicar ao novo jogo. Talvez o caminho passe por priorizar o modo portátil do Nintendo Switch.

Segundas impressões sobre Halt and Catch Fire

Segunda tentativa de assistir a Hall And Catch Fire. A primeira vez foi há uns 2 ou 3 anos, quando a série estava no catálogo da HBO. À época vi apenas o episódio 1, mas não engrenei. Quando decidi retornar agora, descobri que já não está no catálogo de nenhum serviço de streaming. Recorri à locadora do Paulo Coelho e tenho assistido na TV da sala, via Plex.

Acabo de terminar o 1° episódio e dessa vez clicou pra mim. Chamou-me a atenção especialmente a direção de arte, com uma reconstrução convicente da primeira metade dos anos 1980.

Essas histórias dos bastidores do desenvolvimento da computação pessoal e da Internet comercial sempre me interessam.

A ver como vai se dar a construção do personagem Joe MacMillan, que numa aparentemente tentativa de intersecção entre Steve Jobs e Don Draper, pra mim resultou num blasé genérico.

Primeiras impressões sobre o Museu da Rampa

Meio por acaso, no último domingo fui pela primeira vez ao recém inaugurado Museu da Rampa. Após um brunch com Nina e Márcia no Pé de Cajú, íamos à Pinacoteca para ver as exposições atuais, mas lembrei da possibilidade de ir ao novo museu localizado nas Rocas e assim acabamos lá.

Área externa do Complexo Cultural Rampa [foto minha]

Em função do meu trabalho da formação continuada de professores de História da rede municipal de ensino, eu já estava querendo fazer uma visita ao equipamento.

A impressão geral foi positiva, mas destaco dois aspectos que me chamaram a atenção.

Primeiro, nas salas alusivas à participação de Natal na Segunda Guerra Mundial senti muita falta de mais particularidades do impacto da guerra no cotidiano da cidade. Com exceção de uma “sala do blackout”, que tenta recriar a experiência dos cortes de eletricidade como estratégia de defesa, que ocorriam em Natal à época do conflito, não há nada mais significativo a respeito dos desdobramentos para os natalenses da presença americana na cidade, durante a guerra. Além disso, há um foco muito grande nos intinerários de Roosevelt, da saída da sua comitiva dos EUA, até a chegada em Natal.

O segundo ponto diz respeito ao acervo, que se resume a dois uniformes militares e alguns poucos documentos escritos como jornais e livretos publicados na Itália à época da presença da FEB naquele país.

Também saí com a impressão de que o espaço físico do museu está superdimensionado em relação ao acervo disponível. Exemplo disso é uma sala intermediária em que está esposta uma exposição bastante genérica com a temática da paz, que se resume a cartazes com citações que passam por Bob Marley e John Lennon e chegam à Madre Tereza de Calcutá.

Espero que na permanência de um acervo limitado no museu, essa sala seja utilizada para exposições temporárias mais relevantes.

Exposição no hall de entrada [foto minha]
Área externa do Complexo Cultural Rampa [foto minha]

De volta à Hyrule

Desde o fim de janeiro venho jogando um novo save de The Legend Of Zelda Breath of The Wild e tem sido uma experiência incrível. Falo que estou em um novo save porque comecei no jogo em outubro de 2017, quando comprei o Nintendo Switch. Nessa primeira tentativa, dediquei mais de 120h, mas como as jogatinas foram espaçadas, acabei não indo até o fim, o que também se deve ao fato de à época eu ter retomado o hobby dos videogames e estar com muitos jogos na fila.

Lembro que quando peguei o atual console da Nintendo, meio que tinha estabelecido que jogaria um jogo por vez e não sairia comprando outros até que terminasse ou desistisse do que estivesse jogando no momento. Contudo, pouco tempo depois, me vi imerso na cultura dos videogames, sobretudo na sua faceta de colecionismo, e passei a comprar muitos jogos e consoles, o que, obviamente teve um impacto imediato no tamanho do meu backlog e, sobretudo, na forma como eu encarava as gameplays. De maneira geral eu estava jogando muita coisa com pressa, no intuito de passar para o próximo jogo da fila, o que acabava gerando alguma ansiedade em mim, além de me tolher a possibilidade de descobrir bons aspectos de alguns games, que só uma experiência sem pressa e atropelos é capaz de proporcional.

Foi mais ou menos o que aconteceu quando joguei Super Mario Odyssey, entre julho e agosto de 2018. A pressão pelos outros jogos já comprados me fez acelerar a jogatina em direção ao mínimo necessário para terminar o game, além de fugir dos aspectos mais colecionistas da obra, como completar as Power Moons.

Ainda que vez ou outra eu balance ao ver algum amiibo ou tenha aquela vontade repentina de voltar a comprar e empilhar na estante cópias físicas de alguns jogos, no fim de 2021 me desfiz da pequena coleção que acabei construindo e passei a ter uma relação mais minimalista com os games. E foi nesse contexto que eu embarquei numa nova jogatina de Zelda BOTW. Tenho me empolgado bastante e, certamente pela qualidade do design de mundo que a Nintendo imprimiu ao jogo, a vontade atual é de imergir e passar a maior parte do tempo possível em Hyrule. Ao contrário da minha primeira incursão, dessa vez tenho me motivado a fazer todas as side quests, além de explorado com calma e minúcia os diferentes lugares para onde o jogo me leva.

Além disso, essa tem sido uma experiência mais compartilhada com Nina, que chega a se irritar quando por ventura eu começo uma sessão de jogatina sem que ela esteja junto. Ela também tem um jogado um save próprio, mas faz questão de estar comigo quando jogo no meu. Naquela primeira vez que joguei, Nina também se interessava, mas ainda desacostumada ao controle de câmera em jogos 3D, não conseguia ir muito além. Dessa vez, tem sido muito bacana presenciar como ela tem lidado com desenvoltura, desde a destreza para os comandos, até a tradução de diálogos.

General Junkie e as minhas primeiras composições em perspectiva

Capa do, até hoje, único disco do General Junkie

Recentemente estive ouvindo o clássico disco homônimo do General Junkie. Venho convivendo com esse álbum desde o seu lançamento, em 2002, mas o distanciamento tem me feito perceber algumas nuances até então ignoradas.

Apesar de lançado no início da primeira década dos anos 2000, o disco reuniu músicas que foram compostas ao longo dos anos 1990 e que carregavam marcas fortes daquele tempo, sobretudo no que diz respeito à mistura de ritmos e linguagens, tão próprias daquela década. Daí a comparação reiterada pela crítica musical local, do General com as bandas pernambucanas expoentes do Manguebeat, creio eu que sobretudo como consequência da proximidade dos natalenses com o Eddie, que chegou inclusive a gravar “O Amargo“, composição de Gustavo Lamartine.

Contudo, considerando as óbvias diferenças estéticas, acredito que é possível situar as composições do General Junkie num movimento (espontâneo e sem manifesto) nacional mais amplo da música independente brasileira daquele período, que se se permitia ir além de algumas convenções estéticas tão caras aos anos 1980, e que colocaria a banda potiguar na mesma linha evolutiva da música brasileira que também abrigaria nomes como os cariocas Acabou La Tequila e Mulheres que Dizem Sim.

O General Junkie foi muito competente em dialogar com aquela tendência que acontecia na música brasileira da época, partindo do local, assumindo o sotaque natalense, e no caso das músicas registradas no disco, captando o que acontecia fora do Brasil, especialmente a rítmica do Rage Against The Machine e abordagem guitarrística de Tom Morello, conscientemente assimiladas pela banda, como Anderson Foca revelou no livro DoSol: 10 anos de música, e, mais recentemente, no podcast que o DoSol lançou para celebrar os 20 anos de atividades enquanto combo cultural.

O fato é que Gustavo, Paulo e Marcelo lidaram com esse caldeirão de referências e chegaram a um disco cheio de personalidade e, mais importante, sem soar pastiche. Algo que eu certamente não consegui fazer com o República 5, a primeira banda em que toquei, nem com as primeiras composições que escrevi para o SeuZé.

O República 5 começou no final de 1999 e durou até o início de 2003, quando o SeuZé foi formado. Pelo menos entre o meu círculo de convivência, ainda era bastante forte o rescaldo cultural vindo dos anos 1990.

Quando escrevi as minhas primeiras músicas, acho que em 1998 ou 1999, eu e alguns amigos do Salesiano ouvíamos muito Nirvana, Engenheiros do Hawaii e Paralamas. Assim esses meus primeiros esforços de composição remetiam a essas bandas e de certa forma eram canções mais ortodoxas no sentido de serem mais diretas e não sugerirem misturas entre gêneros e ritmos. Em algumas dessas primeiras produções eu escrevia letra e música, mas era bem comum à época eu musicar letras de alguns colegas da escola, principalmente de Carlos Henrique com quem estudei até o terminarmos o Ensino Médio, em 2000.

Uma dessas parcerias deu origem à canção Quem Somos Nós, que originalmente foi pensada como um rock mais direto, bem na fonte dos Engenheiros, mas que quando trabalhada em ensaios pelo República 5, acabou ganhando uma pegada mais reggae, em grande parte por sugestão de Carlinhos, baterista da banda. Quem Somos Nós Chegou a ser registrada numa demo que a minha primeira banda gravou no Estúdio Cantus, capitaneado por Hélder Lima, à época baterista do Cantus do Mangue, banda de reggae seminal natalense. Essa gravação provavelmente foi feita em 2001 ou 2002, em dois canais. Posteriormente seria mixada por Rufino, um conhecido, numa sala do CEFET-RN.

O que me lembro de “Quem Somos Nós”, uma das minhas primeiras composições, em parceria com o amigo Carlos Henrique. Destaque para os trocadilhos gessingerianos.

Carlinhos, que além de baterista do República 5, era meu vizinho, era bastante curioso e tinha uma pegada de ouvir música com ouvido de pesquisador. Lembro que mais ou menos nessa época, num dia em que estávamos voltando da saudosa Velvet Discos para Lagoa Nova, bairro em que morávamos, ele me falou algo como:

Para quem tem banda, um disco é como um livro.

De fato, boa parte da tendência que desenvolvi nesses primeiros anos de bandas, de pensar em arranjos sempre considerando a possibilidade de misturar ritmos e linguagens, veio através de Carlinhos. Foi ele quem me apresentou os discos de Chico Science, o Guentando a Ôia – do Mundo Livre – e mais a frente, em 2002, o Alugam-se Asas Para o Carnaval, do Jorge Cabeleira. Esse último exerceu um forte impacto em mim e influenciou decisivamente a estética que as primeiras composições do SeuZé seguiram, baseada numa mistura de rock, blues e baião.

Acontece que a leitura que fiz de todas essas e bandas e discos foi, em alguma medida, ingênua e literal, como um Sérgio Leone sem intencionalidade e ironia. Ainda gosto de algumas ideias do Festival do Desconcerto, do SeuZé, sobretudo considerando que só pudemos contar com um produtor experiente na mixagem do disco. Mas comparando hoje com o disco do General Junkie, o de estreia do SeuZé me soa ligeiramente pastiche e apressado no trato com as referências. E ao refletir sobre isso não o faço em tom de lamento, arrependimento ou juízo de valor, mas como uma observação que só o distanciamento temporal pode produzir.