Ansiedade inofensiva
Uma das coisas que me fazem falta diante da baixa frequência de apresentações do SeuZé é uma ansiedade controlada/sensação diferente que costumo sentir em dias de show, sobretudo em dias de sábado. A iminência do show traz uma percepção diferente sobre o dia. É um certo estado de suspensão/marasmo em que as coisas ao redor parecem mais leves e desimportantes, sendo meras coadjuvantes para o momento mais importante do dia, mais tarde, quando chega a hora de subir ao palco. Lembro de uma vez em que Anderson Foca se referiu aos dias de shows com as suas bandas como dias sagrados. Gosto dessa definição.
Escrevo sobre isso porque justamente hoje tenho experimentado essas sensações, mas com a Banda Café. Daqui a uma hora e meia faremos o nosso Especial Beatles, no Agaricus, em Petrópolis. Desde que acordei venho pensando sobre o show que faremos mais tarde e projetando como será a noite. Acolhendo e tentando entender esse sentimento, penso que uma definição possível seria a de ansiedade inofensiva.
Essas sensações não costumam vir nos dias de apresentações da Banda Café. Acredito que isso se explica pelo fato de termos nos apresentado semanalmente de maneira quase ininterrupta ao longo de 20 anos de carreira. Penso que essa recorrência de apresentações dá um caráter de ofício à música que fazemos. Aliado a isso, há também o fato de o tipo de apresentação que fazemos na maior parte das vezes se situar num limbo entre show e música ao vivo. Ainda que a apresentação de hoje vá acontecer num restaurante e tenhamos que tocar de uma forma que o público presente possa conversar enquanto tocamos, a participação da Banda Café foi divulgada mais como show. Também acho que pesa bastante o show ser o “Especial Beatles”, que fizemos poucas vezes como um momento específico, a despeito de termos várias músicas do quarteto mais famoso de Liverpool diluídas no repertório das nossas apresentações mais corriqueiras.
Por mais dias de ansiedade inofensiva.

Indiana Jones e o Grande Círculo zerado. Pouco mais de 35h de gameplay.
Filmes vistos em 2024
Montagem automática gerada pelo Letterboxd com os pôsteres de todos os filmes que assisti em 2024
Em 2016 passei a registrar os filmes que assisto. Foi quando comecei a utilizar o Letterboxd, uma rede social/plataforma voltada para cinema. Além do fator social, de poder acompanhar o que as pessoas que você segue têm assistido e que impressões têm postado, o Letterboxd tem um sistema de estatísticas fantástico que gera dados a partir das películas que você registra por lá.
No meu year in review de 2024, a plataforma me avisa que assisti 49 filmes ao todo.
Foi um ano em que me voltei à filmografia de Asghar Farhadi, de quem assisti a O Passado, O Herói e Todos Já Sabem.
Seguem abaixo algumas estatísticas geradas pelo Letterboxd para os filmes que assisti ao longo do ano.
Resumo 2024
Distribuição anual e semanal de filmes assistidos
Primeiro e último filmes assistidos em 2024
Filmes assistidos por país
Gêneros, países e idiomas
Diretores mais assistidos em 2024
Atores e artrizes mais assistidos em 2024
Desde 2016 venho reunindo aqui no blog as estatísticas que o Letterboxd gera a cada ano. Veja como foi nos anos anteriores: 2023, 2022, 2021, 2020, 2019, 2018, 2017, 2016.
Todos esses compilados anuais estão reunidos aqui.
Livros lidos em 2024
Livros lidos em 2024.
2024 foi o ano em que comecei a preencher um vazio importante no meu repertório de leitor: Jorge Amado. Saí extasiado após “Os Velhos Marinheiros ou o Capitão-de-Longo-Curso”. Também voltei a Milan Kundera após uns bons anos e continuei explorando o universo de Sally Rooney com “Conversas Entre Amigos” e “Belo Mundo, Onde Você Está?
Mantendo a tradição, segue a relação de livros lidos ao longo do ano, essa vez sem outros comentários além dos que fiz à medida que os lia:
Cozinha Confidencial: Aventuras no Submundo da Restauração
Anthony Bourdain
Os Velhos Marinheiros ou o Capitão-de-longo-curso
Haruki Murakami
Woody Allen: a autobiografia
Woody Allen
Primeira pessoa do singular
Haruki Murakami
As Pequenas Virtudes
Natalia Ginzburg
Pastotal Americana
Philip Roth
A Festa da Insignificância
Milan Kundera
A Morte e a morte de Quincas Berro D’ Água
Jorge Amado
Conversas entre amigos Sally Rooney
Belo mundo, onde você está
Sally Rooney
Pequena Coreografia do Adeus
Aline Bei
Ainda Estou Aqui
Marcelo Rubens Paiva
Literatura infantil: Cartas ao filho
Alejandro Zambra
Feliz Ano Velho Marcelo Rubens Paiva
O Velho e o Mar Ernest Hemingway
Viagem Graciliano Ramos
Caderno de Faróis Jazmina Barrera
Cem Anos de Anos de Solidão
Gabriel García Márquez
Desde 2016 venho listando as minhas leituras anuais. Veja que livros foram lidos por aqui em anos anteriores: 2023, 2022, 2021, 2020, 2019, 2018, 2017, 2016.
Todos esses compilados anuais estão reunidos aqui.
Mais ouvidas em 2024
Estatísticas geradas pelo rewind.musicorumapp.com a partir de dados do Last.fm
Mais um ano em que Jorge Drexler e a trilha de The Eddy aparecem entre os mais ouvidos do ano. Entre as boas descobertas de 2024 estiveram o Mil Coisas Invisíveis, de Tim Bernardes, e o Pique, de Dora Morelenbaum, cujo show assisti no último dezembro, na excelente sala da Sede Cultural DoSol.
Fiquei supreso com a ausência das escolhas de Nina, que incluíram Taylor Swift e Bruno Mars, por exemplo, e que em alguns casos eu apreciei de verdade. Provavelmente se diluíram pelo fato de as obsessões da filha ainda não estarem no nível das do pai.
Apesar de interagir pouco nas redes sociais, gosto de acompanhar em silêncio alguns virais que revelam alguns dos hábitos de pessoas que sigo e por quem me interesso. Exemplo disso são as retrospectivas musicais das plataformas de streaming, que acontecem anualmente, no final de novembro.
Segue o já tradicional resumo do que ouvi no ano passado:
Colagem com a capa dos 100 discos mais ouvidos em 2024
Desde 2016 venho listando aqui no blog as minhas estatísticas de músicas e discos ouvidos. Os anos anteriores ficaram assim: 2023, 2022, 2021, 2020, 2019, 2018, 2017, 2016
Todos as estatísticas anuais estão reunidas aqui
Pílulas diárias de Saramago e Cortázar
Abro o meu Goodreads para marcar como lido um livro que acabei de terminar e me deparo com a lista currently reading. Vejo que lá estão alguns títulos cuja leitura iniciei há bastante tempo e com os quais não tenho contato há alguns bons meses. É o caso de O Caderno, de Saramago, e do primeiro volume da coletânea Todos os Contos, de Cortázar.
O primeiro reúne textos que o autor português publicou entre 2008 e 2009, no blog em que mantinha àquela época. O segundo tem um título autoexplicativo, mas com a particularidade de cada conto, com poucas exceções, se encerrar em duas ou três laudas. Algo que os dois títulos têm em comum é reunirem textos curtos, que demandam pouco fôlego para serem lidos individualmente. Penso que esse é exato o motivo de eles estarem tanto tempo como inacabados entre as minhas leituras.
De alguma forma, esse tipo de escrita mais curta, de ensaios e contos menores, ou mesmo de textos em pegada de diário, é algo que eu tenho consumido bastante na web, em vários blogs que acompanho. Além disso, é como os livros com textos que exigem maior fôlego estivessem engolindo aqueles com escritos mais contidos. Se passo alguns dias sem retornar aos escritos mais contidos, o texto mais longo da vez monopoliza o meu tempo e me vejo sem retornar àquelas leituras já iniciadas.
Decidi ontem que vou adotar um método na tentativa de lidar melhor com esses textos de extensões distintas.
A ideia é me auto impor o limite de ler somente um texto por dia de cada um desses livros - o de Saramago e o de Cortázar - aceitando a ideia de que passarei perto de um ano convivendo cotidianamente com cada uma das obras, mas também garantindo o espaço no meu dia-a-dia para as leituras que demandam maior compromisso diário. Vejo como uma forma, também, de trabalhar a autodisciplina, visto que como me ocorreu hoje mais, cedo, quando dei o pontapé neste experimento, certamente serão várias as situações em que me verei no ímpeto de querer ler um ou dois textos a mais.
Entrevista para o "Isso é História"
Após mais de 14 anos após defender a minha dissertação, nessa semana tirei a poeira do trabalho. Recebi um convite do professor João Maria Fraga para uma entrevista sobre a minha pesquisa. Ele tem conduzido o Isso é História, programa em que conversa com historiadores sobre os seus trabalhos de mestrado e doutorado.
Foi bom voltar a ter contato com o meu texto após tanto tempo.
A entrevista está no YouTube. Compartilho abaixo.
A ansiedade esteve forte por aqui ao longo das últimas semanas e levou embora a concentração para leituras de maior fôlego. Mas é justo a literatura uma das principais ferramentas que me ajudam a estar mais tranquilo. Eis que voltei a Sally Rooney, que já tinha me feito um bem danado com “Pessoas Normais”. “Conversas entre amigos” tem a densidade ideal que consigo suportar nesses tempos de mente acelerada e dificuldade para estar no presente.

Cheguei atrasado ao 5 a Seco. Vi o show no Coala Festival pela tevê e que banda!
Terminei de ler Pastoral americana, de Philip Roth 📚
Super Mario Wonder zerado. Pouco mais de 25h de gameplay.
Star Wars Jedi: Fallen Order - primeiras impressões
Nesse feriado de Dia do Trabalho comecei a jogar Star Wars Jedi: Fallen Order. Há muito tempo eu não adentrava a madrugada jogando videogames, mas esse jogo me fisgou.
Os meus planos para o feriado incluíam continuar a campanha de Fallout 4 que iniciei após me empolgar com a série do Amazon Prime. Mas após Star Wars Jedi: Survivor entrar no catálogo do Game Pass decidi dar uma chance a Fallen Order.
A minha relação com Star Wars é tardia. Assisti aos filmes da primeira trilogia nas reprises que a Globo fez ao longo dos anos 1990 e à época não dei muita importância. Quando as prequelas começaram a sair, no início dos anos 2000, voltei aos filmes clássicos e passei a me interessar mais, apesar de praticamente não ter tido contato com o universo expandido de animações, livros e videogames.
Mas a realidade é que, com exceção dos episódios IV, VIII e de Rogue One, o meu interesse sempre foi mais pelo entorno de Star Wars do que propriamente pelas histórias contadas em cada filme. Gosto especialmente da ambientação especial, da geografia e da diversidade de planetas e espécies de personagens.
Foi com esses antecedentes que cheguei a Fallen Order.
Em relação à jogabilidade, o jogo não esconde de onde parte nos seus principais aspectos: puzzles que remetem a Breath of The Wild; combate desafiador soulslike; exploração com muito parkour - no estilo de Uncharted - e com possibilidade de desbloqueio de aréas previamente inacessíveis, seguindo a cartilha metroidvania.
Eu tinha ouvido falar que o jogo podia intimidar a quem não tem fluência nos combates estilo Souls, e de fato me assustei um pouco com a dificuldade de alguns dos primeiros encontros. Contudo, à medida que novas habilidades vão sendo desbloqueadas, via pontos de experiência ou através do reencontro do personagem com a força, os embates vão se tornando mais acessíveis para jogadores não tão habilidosos quanto eu.
Ao todo, entre a madrugada de terça para quarta-feira e o fim da tarde do feriado de ontem, devo ter jogado cerca de seis horas. Isso foi suficiente para despertar em mim a vontade de passar mais tempo no universo Star Wars. Além de estar empolgado para seguir nesse Fallen Order e após isso jogar o Survivor, pensei em assistir aos primeiros filmes com Nina. Também estou considerando assistir a Clone Wars e Andor, sobre os quais já ouvi comentários positivos.
Dia 2 do #WeblogPoMo2024
Weblog Posting Month, 2024
Através dessa postagem de Robb Knight fiquei sabendo do #WeblogPoMo2024, proposto por Anne Greens:
What is it? Weblog Posting Month, 2024! If you use weblog.lol, or otherwise have a personal blog, you should absolutely participate in this month-long blog posting extravaganza!
Encarei o desafio e me esforçarei para postar o máximo possível aqui no blog ao longo do mês de maio, de preferência diariamente.
Acho que é um bom momento para registrar um pouco do meu processo de composição nos últimos tempos, que se intensificou um pouco com os singles que o SeuZé lançou em fevereiro e março e com o disco maior que pretendemos soltar ainda nesse ano.
Dia 1 do #WeblogPoMo2024
Ouvindo música com Nina
Ao longo das últimas semanas tenho ouvido bastante música pop, sobretudo Kate Perry, Miles Cyrus, Lady Gaga e Taylor Swift. A despeito de eu gostar genuinamente de algumas músicas das artistas mencionadas - é o caso de Flowers - as escolhas têm sido de Nina, que cada vez mais tem desenvolvido um gosto por ouvir música deliberadamente.
A maneira como ela pergunta, tão logo entra no carro, “posso colocar música?”, me remete automaticamente a quando eu começava a desenvolver o meu próprio gosto musical. Pelos idos de 1993 ou 1994 eu tinha um ritual matinal que contava com a boa vontade dos meus pais e consistia em 2 passos que se repetiram à exaustão ao longo de alguns bons meses.
- Enquanto me aprontava para ir à escola, dava play num VHS com o registro de um show do Asa de Águia que gravei a partir de uma transmissão da Band Natal.
- Já no carro, no caminho para o Salesiano, ouvia uma fita do Acústico Nirvana.
A cada vez que o cansaço pela repetição me deixa prestes a pedir para ela escolher outras músicas, lembro da maneira paciente com que a minhas obsessões da época foram acolhidas por painho e mainha.
Um adendo: em alguns dias eu e Nina combinamos de cada um escolher uma música ou um disco e irmos nos revezando. Nessas, sem pressão e de maneira relativamente espontânea, ela acaba escolhendo um álbum que conheceu através do que eu botei para tocar. Foi o caso de Another One, de Mac Demarco.
Terminei de ler As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg. 📚
Cantinho para leitura
Manton o responsável pelo Micro.blog, misto de rede social e serviço de hospedagem web, publicou recentemente uma breve postagem sobre o rearranjo que fez no seu espaço de leitura. Fiquei pensando em organizar algo semelhante para mim: um cantinho da casa com uma cadeira minimamente confortável, bem iluminado, arejado e, de preferência num cômodo mais silencioso do apartamento.
Qual não foi a minha surpresa ao saber que já disponho de um lugar com essas características, mas que eu ainda não associava a um espaço para leitura como o faço como a minha cama e o sofá da sala.
Cantinho para leitura que já me esperava aqui em casa.
Empolgado para voltar a fazer parcerias em composições. Ontem recebi uma letra linda de Anderson Foca para musicar.
Comecei a ler: As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg. 📚
Terminei agora de ler agora Primeira pessoa do singular, de Haruki Murakami. 📚
Livro de contos em que o autor japonês se assume como narrador e levanta a dúvida sobre o quão autobiográficas são as tramas narradas. Alguns temas presentes em obras anteriores retornam aqui: referências à música ocidental - sobretudo música clássica - e animais antropomorfizados, por exemplo.
Começando mais um Murakami: Primeira pessoa do singular 📚
Indo ao Domingo na Arena com Márcia e Nina para ver os cachorros para adoção.
A morte em Jorge Amado e a perda de um tio
Não, não era a mesma coisa a presença da morte lá na cidade da Bahia, rápida e banal nas rodas de um automóvel, nos leitos dos hospitais, nas páginas de desastres e crimes dos jornais. Era leviana e secundária, por vezes não merecia mais de duas linhas nas gazetas, desaparecendo em meio a tanta vida a cercá-la, a tanto ruído e luta, não havia lugar para ela nos corações apressados, dissolvia-se sua sombra nas luzes, e os risos não deixavam ouvir seu murmúrio. Seu podre bafo, como iriam senti-lo as mulheres envoltas em perfume, em cálidas vagas de desejo? Passava a mote despercebida, apenas executava sua tarefa e já desaparecia, não havia tempo a perder com ela em meio a tanta ânsia e pressa de viver.
“Fulano morreu”, anunciava-se, nos jornais, nos rádios, nas conversas, dizia-se “coitado!, pobre dele!, já foi tarde, era tão moço ainda…”, e não se falava mais nisso, havia muito assuntoa comentar, muito riso a rir, muita ambição a satisfazer, muita vida a viver.
Em Periperi era diferente: não era vida feita de trabalho e luta, de ambição e dificuldades, de amor e ódio, de esperança e despero, a que ali viviam ou vegetavam. Ali o tempo se alongava, nada o apressava, os acontecimentos duravam acontecendo. E o mais longo de todos era a morte, jamais banal e rápida, sempre fulgurante e demorada, apagando, com sua chegada, todas aparências de vida do lugar.
Jorge Amado, em Os Velhos Marinheiros ou o Capitão de Longo Curso
Escrevo de Tabatinga, onde estou desde ontem sem conseguir largar o Jorge Amado sobre o qual falei nos últimos posts.
Pouco após passar pelo trecho do livro citado acima, recebi a notícia de que o meu tio Cesar, irmão de mainha, faleceu. Ele já vinha bastante doente há mais de um ano e desde o fim de 2023 teve qualquer recuperação desacreditada pelos médicos.
Ainda que nós familiares não tenhamos dúvidas de que sua passagem foi um descanso dado o visível sofrimento físico que ele enfrentava cotidianamente, fica esse sentimento estranho de conformação com a ideia de que “ele já vinha sofrendo tanto”, como se morte dele não estivesse não estivesse acontecendo na Periperi que Jorge Amado representou em Os Velhos Marinheiros, mas na Salvador idealizada no livro.
Vai ver são apenas os vestígios ainda não expurgados da minha formação cristã, que lá do incosciente continuam cobrando de mim uma atitude expiatória diante da morte. De Tio César vão ficar as lembranças da maneira leve e inconsequente com que levava a vida, da convivência mais intensa nos anos de veraneio em Cotovelo, além de dois versos do hino do Fluminense, frase-síntese que entoava quando o pileque dava os primeiros sinais:
Sou tricolor de coração sou to time tantas vezes campeão
Descanse em paz, tio.
Jorge Amado a caminho
Após a tentativa frustrada de ontem de pegar emprestado um Jorge Amado na Biblioteca Câmara Cascudo, acabei de comprar Os velhos marinheiros, ou, O capitão-de-longo-curso. Com a previsão de chegada até sexta-feira, essa vai ser a minha leitura do fim de semana em Tabatinga.
Os quase 50 livros publicados pelo autor baiano dificultaram a escolha do título em que vou debutar na sua obra, mas após descobrir que Os Velhos Marinheiros está na lista dos favoritos da vida de Tom Crithlow, um dos meus escritores favoritos na web aberta, fiz a minha escolha.
O livro físico estava custando quase o dobro do ebook, o que por si só já justificaria a minha opção de leitura no Kindle, mas como Márcia manifestou o interesse em voltar à obra de Jorge Amado, peguei o impresso nessa edição da Companhia das Letras, para que compartilhemos com mais facilidade.
Primeiras impressões sobre a Biblioteca Câmara Cascudo
Parte do acervo disponível para empréstimo na Biblioteca Câmara Cascudo
Todos temos lacunas em nossos repertórios de leitores, ouvintes de música ou amantes de filmes. Dentre as minhas, uma das que mais venho pensando em preencher é Jorge Amado, de quem até hoje nada li e cuja obra só tive acesso através das adaptações para telenovelas e cinema.
Hoje, no meu intervalo para almoço, saí decidido a começar o meu encontro com o escritor baiano.
Costumo almoçar em self-services nas redondezas da Secretaria Municipal de Educação. Um deles é o Pitéu, que fica na Rua Potengi, exatamente em frente à Biblioteca Câmara Cascudo. Desde que o equipamento foi reinaururado após uma reforma quase interminável, eu vinha cogitando uma visita. Hoje, enquanto deglutia a honesta carne de sol da nata oferecida pelo restaurante e observava a fachada da biblioteca, decidi atravessar a rua após pagar a conta.
Fui à biblioteca com três objetivos principais: fazer o meu cadastro para poder pegar livros emprestados, explorar rapidamente o prédio e o acervo e encontrar alguma obra de Jorge Amado. Pelas minhas experiências recentes em visitas a equipamentos culturais reinaugurados nos últimos anos pelo governo estadual - mais especificamente a Fortaleza dos Reis Magos e o Complexo Cultural da Rampa - eu não tinha grandes espectativas, portanto não me surpreendi com a falta de estrutura da biblioteca. Resumo nos tópicos abaixo:
- Já se passaram mais de dois anos da reabertura e a Câmara Cascudo ainda não dispõe de um sistema digital para cadastro dos usuários e processamento dos empréstimos.
- A estrutura de ar-condicionado central do prédio não funciona, de maneira que apenas a sala com o acervo já catalogado é climatizada.
- O acervo disponível para empréstimo não foi renovado para a reabertura da biblioteca, além de não ter passado por nenhum procedimento de higienização. Sem exceção, todos os livros que manipulei estavam muito empoeirados, mesmo se considerando serem exemplarem revativamente antigos.
Explorei com mais atenção as seções de literatura nacional e informática. Nessa última, até pela pouca idade do tema, havia um acervo com livros mais bem conservados, ainda que mal higienizados. Cheguei a folhear e cogitei pegar emprestado um sobre web design, mas era uma edição do fim década de 1990 e as linguagens que o material parecia abordar não seriam úteis para a customização deste blog, a principal razão do meu interesse pela temática.
No corredor de literatura brasileira fui direto à letra A de Amado e no caminho até lá me deparei com a situação já mencionada: acervo desatualizado e, mais importante, mal higienizado. Antecipando-me aos que me acusarão de etarismo editorial, o meu incômodo não é exatamente com a data de publicação dos livros disponíveis. Por mais que eu tenha sentido falta de o acervo da biblioteca contemplar autores brasileiros e estrangeiros contemporâneos, a falta de higienização que tem insistido em destacar tem um manifestação tátil nessa biblioteca estadual. Uma rápida manueada em alguns livros aleatórios foi suficiente para deixar as minhas mãos bem empoeiradas e desencadear reações alérgicas.
Fui um frequentador assíduo da Biblioteca Central Zila Mamede durante a minha graduação e mestrado na UFRN e, tanto entre os livros relacionados nas ementas das disciplinas que cursei, quanto os de literatura e outras categorias que eu tomava emprestado sem obrigações acadêmicas, estavam exemplares com décadas de publicação e amarelados pela ação do tempo, mas ainda assim limpos sem a poeira que encontrei na Câmara Cascudo.
É lamentável que essa situação aconteça naquela que, excetuando-se a BCZM, é considerada a maior biblioteca do Rio Grande do Norte, após anos fechada para requalificação, localizada numa cidade do tamanho de Natal, beirando os 800.000 habitantes e capital de uma das unidades da federação. Esse sentimento fica ainda mais forte após experiências em bibliotecas de outras cidades, como foi o caso da que tive em Medellin no começo desse mês.
Dessa forma, meu debute na obra de Jorge Amado vai ser adiado por mais alguns dias. Vou buscar em algum sebo da cidade ou recorrer ao único que pode garantir uma leitura sem poeira: o Kindle.